Devo cantar a noite…

Photo by Claire Brear on Unsplash

Devo cantar a noite, não a estrela
Diurna, mas a escuridão da sombra
Soturna, que se estende pela viela
Como se fosse uma longa alfombra.

Devo esquecer a natureza idílica
Que os poetas tornaram sagrada,
A floresta deixou de ser uma basílica
E o cheiro das flores desagrada.

Devo lembrar dos milhares doentes
Que preocupam os seus parentes
Que torcem, lutam e oram.

Devo consolar os que choram,
E, sob o túmulo dos corpos,
Rezar pela alma dos mortos.


Photo by Jonatan Pie on Unsplash

Antes de nascer, eu era
Como uma estranha quimera,
Metade dragão, metade leão.
Vivia em uma torre de marfim,
Dormia com o canto do Serafim
Cuja voz ressoava do Odeão.

Lembro dos campos floridos
Onde os papagaios coloridos
Imitavam o som do acordeão.

Como a pele de um camaleão
O arco-íris, de forma surreal,
Vestia as cores da aurora boreal.

Oh! Que saudades desse tempo mágico,
Já não aguento viver neste mundo trágico!


L’oiseau du bonheur de Âme Sauvage.

O sol alaranjado, uma flor de jasmim
Flores coloridas, perfumadas margaridas
Que apaziguam as mais sofridas dores
Dos amores de uma noite de botequim.

Quando os pássaros raros da primavera
Se assomam à janela, lhes digo: “Sim!
Cantem sem parar como as ondas do mar,
Me embalem nessa tarde de sonho sem fim.”

Igual as minhas amantes, os pássaros exuberantes
Em um voo acrobático, tal qual os grandes mágicos
Me seduzem, e logo, desaparecem entre as nuvens
E jamais volto a sentir-me tão feliz como antes.


Sob o sol do meio-dia vi um senhor enfadado caminhando descalço em uma longa estrada de terra, estrada repleta de pedregulhos e alguns pequenos cacos de vidro.

Rapidamente percebi que não se tratava de um homem comum, pois como ele estava com a camisa enrolada na cabeça para proteger-se do sol, dava para ver nitidamente que no lugar dos ombros ele ostentava um belo par de asas.

Contudo o velho homem mantinha a marcha da caminhada ainda que as pedras o molestassem e os cacos de vidro perfurassem a sola cascuda dos seus pés. Ao invés de alçar voo utilizando…


A lua clareia a rua com sua luz opaca e triste; a garoa fina cai das nuvens, e a cidade dorme. Sob o silêncio da meia-noite, um belo gato negro cochila debaixo do carro, em meio ao que parece ser um pesadelo terrível, ele solta uns gemidinhos enquanto se mexe de um lado para o outro.

Na melancólica escuridão noturna, trajando um vestido amarelo, a Bela Laura desfila pela rua deserta emanando sua beleza resplandecente da mesma forma que o sol espalha seu calor pelo universo.

Ela move as pernas em um ritmo suave, o traje destaca as curvas voluptuosas…


Prólogo.

Vou contar-lhes uma estória
Uma estória bem poética,
De um príncipe africano
& uma senhora esquelética.

I.

No castelo do Rei Zulu III
Eles se conheceram do nada;
Ele era o único herdeiro,
Ela estava sendo julgada.
Havia roubado um pão,
Por isso ia ser castigada,
Iam cortar a sua mão
Com uma faca mal afiada.

II.

O verdadeiro amor
Não tem hora nem lugar,
No dia do julgamento
Eles começaram a se amar.
Bastou uma troca de olhar
Para mudar o destino da vida,
Tanto do jovem príncipe
Quanto da velha bandida.

III.

Na hora da execução
Ele deu…


L’ambulance improvisée de Claude Monet.

Na hora de dormir
Sempre penso na morte
Que ainda está por vir
Independentemente da minha sorte.

Sinto o meu corpo gelado
Um frio dentro da barriga
Meu coração fica acelerado
Minha mente se agita:

“Como assim? Deixar de viver?
Me parece uma loucura,
Que realidade mais dura
Nascer, crescer, envelhecer e morrer!”

Pior é não saber o dia
Não estar sequer preparado
Pode ser numa noite de alegria
Em um momento inesperado.

Em uma fração de segundo
Serei expulso desse mundo
E nunca mais poderei contemplar
O sol, a lua, as estrelas e o mar.

Não haverá mais nada
Perderei…


Minuit le chat du bois perdu de Hélène Gaudy & Elenia Beretta

Perguntei ao sol:
- Onde está o falecido?
Me disse, ao pé do ouvido:
- Deves perguntar à lua.
No meio da escura rua
Também lhe indaguei
E ela, tão triste e bela,
Assim me respondeu:
- não deve estar no céu,
procura no fundo do mar,
os peixes irão te informar;
Então, da areia da praia
pedi ajuda ao velho pacu
que perguntou ao pirarucu
que buscou a preta enguia
mas no mar ninguém sabia
nem mesmo a sábia raia.
Cansado, perto de desistir,
Ouvi um cão velho latir,
Um latido rouco e fraco
De um pobre cachorro magro.
- Tu podes me dizer, oh triste cão,
Onde está a alma do meu irmão?
E então, me respondeu assim:
Claro, meu amigo, posso…

Paulo Guerra

Quero me distinguir de todos os poetas imbecis da minha geração.

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